Pedro Henriques, 30 anos de futsal: a entrevista de uma vida
Em 2026, Pedro Henriques — conhecido no futsal nacional simplesmente como PH — celebra 30 anos de ligação ininterrupta ao jogo. Três décadas que o viram crescer de jovem adjunto no Sporting para treinador de guarda-redes, técnico principal, coordenador, responsável federativo, selecionador, formador… e, sobretudo, uma das vozes mais respeitadas do futsal português.
Com passagem por clubes históricos como Sporting, Benfica, Belenenses, Fundão, Nagoya Oceans e Pinheirense, experiências internacionais, liderança na formação e coordenação estrutural, PH construiu um percurso raro no futsal mundial: transversal a todas as áreas, marcado por resultados, mas acima de tudo por pessoas, valores e visão de futuro.
Nesta entrevista especial, fala sobre o passado, sobre as lições que aprendeu, sobre o jogo que mudou… e sobre o que ainda sonha construir.
Pedro, completa este ano três décadas de ligação ao futsal. Quando olha para trás, qual é o primeiro momento — bom ou mau — que sente ter definido a sua carreira?
PH — Quando olho para trás, o primeiro momento que verdadeiramente definiu a minha carreira foi aquele em que percebi que o futsal me ia exigir muito mais do que entusiasmo ou talento. Foi um momento duro, de confronto comigo próprio, em que falhei, duvidei e senti o peso da responsabilidade. Não foi bonito, nem fácil — mas foi profundamente transformador.
Ali entendi que este caminho não se faz de aplausos, faz-se de caráter. Que o futsal ia testar a minha resiliência, a minha capacidade de liderar em silêncio, de cair e levantar sem garantias de reconhecimento. Esse momento ensinou-me a respeitar o processo, a valorizar as pessoas e a perceber que o verdadeiro legado não está nos resultados imediatos, mas nas marcas que deixamos nos outros. Foi aí que deixei de “gostar” de futsal e passei a vivê-lo com alma… e com sentido de missão.
Passou por funções muito distintas. Qual foi o papel que mais o transformou enquanto profissional e porquê?
PH — Se tiver de escolher, foi o papel de coordenador. Não porque seja o mais visível, mas porque é o mais exigente a nível humano. Ser coordenador obrigou-me a olhar para lá do treino e do jogo. Percebi que o futsal é feito de pessoas antes de sistemas ou resultados.
Aprendi a ouvir mais do que falar, a tomar decisões difíceis, a proteger quem trabalha comigo e a carregar problemas que não aparecem nos relatórios. Cresci na liderança, na empatia, na responsabilidade. E levei tudo isso para as outras funções. Hoje sei: o impacto de um profissional mede-se pelas pessoas que ele ajuda a crescer.
Trabalhou em vários contextos competitivos. Que aprendizagens únicas retirou de cada um?
PH — Aprendi que o futsal não tem uma única verdade. Nos grandes clubes como Sporting e Benfica, vivi a exigência diária, o detalhe, a pressão que molda caráter. No Belenenses, percebi o valor da comunidade, da tradição e da pertença.
No Nagoya Oceans, a disciplina e o rigor japonês mudaram a minha forma de trabalhar: tudo planeado, tudo respeitado, tudo com propósito. No Fundão e Pinheirense encontrei o futsal puro, resiliente, onde a criatividade nasce da escassez.
Na formação e nas seleções percebi algo ainda maior: cada palavra pode mudar um percurso de vida. Cada atleta é uma responsabilidade emocional e ética.
O futsal evoluiu muito desde 1996. Quais foram as três maiores revoluções?
PH — Primeiro, a passagem da paixão para a responsabilidade. O futsal deixou de ser improviso e passou a ser método. Segundo, a brutal aceleração do jogo — hoje decide-se em décimos de segundo. Terceiro, a consciência do impacto humano do futsal: percebemos que formamos pessoas, não apenas atletas.
Foi sempre uma referência no treino de guarda-redes. Como vê a evolução da posição?
PH — O guarda-redes deixou de ser o “último homem” — passou a ser um dos corações do jogo. Hoje é organizador, líder e decisor. A evolução técnica e tática é enorme, mas o que mais me orgulha é a evolução mental: trabalha-se personalidade, leitura, coragem.
Insisti anos para que acreditassem no treino específico. Hoje vejo jovens guarda-redes preparados, respeitados e conscientes do seu papel. Valeu a pena.
Que competências são essenciais para liderar um projeto de futsal hoje?
PH — Liderança humana, visão estratégica e rigor estrutural. É preciso perceber pessoas, antecipar caminhos e criar processos. E acima de tudo: inspirar. Um projeto só é forte quando todos acreditam nele — e isso constrói-se com verdade, proximidade e responsabilidade.
O que aprendeu com as suas experiências internacionais?
PH — No Japão, aprendi excelência e disciplina. Nada é ocasional: tudo é processo. Na Guiné-Bissau, percebi que o futsal pode ser transformação social. Mesmo sem o projeto avançar, vi talento puro e paixão bruta. Ambas as experiências mudaram a minha forma de treinar — mais humana, mais adaptável, mais consciente.
Se tivesse de escolher um conceito essencial para o futuro do futsal português, qual seria?
PH — Formação com propósito. Não apenas jogar para ganhar, mas formar para crescer. Portugal tem talento, mas precisa de visão de longo prazo: metodologias estruturadas, acompanhamento, valores. Quando fizermos isso sistematicamente, subiremos de patamar.
Que desafios vê para a próxima década do futsal?
PH — O maior desafio é crescer sem perder a essência. A profissionalização é fundamental, mas tem de ser sustentável, ética e coerente. O risco? Querer resultados rápidos sem cuidar do caminho — e sem cuidar das pessoas.
Depois de 30 anos, qual é a ambição que ainda guarda?
PH — Sinto-me realizado pelo trabalho na AF Setúbal, mas tenho saudades da quadra: da adrenalina, da relação direta com os atletas. A minha ambição é unir esses dois mundos — continuar a desenvolver a modalidade e, ao mesmo tempo, voltar a sentir o ritmo da quadra de forma mais próxima.
Mais do que acumular experiência, quero transformar cada ano em oportunidade para crescer, ensinar e inspirar. Continuo apaixonado pelo futsal — talvez até mais do que há 30 anos.
Três décadas depois, Pedro Henriques continua a ser uma figura de referência — não apenas pelo currículo, mas pelo impacto humano que deixa por onde passa. Mestre na liderança, pioneiro no treino de guarda-redes, estratega, formador e pensador do jogo, PH olha para o futuro com a mesma paixão com que começou.
Se o futsal português é hoje mais maduro, mais estruturado e mais consciente, muito se deve a pessoas como ele — que viveram o jogo antes de ser profissional, ajudaram a moldá-lo enquanto crescia e continuam a empurrá-lo para a frente, sem perder a essência.
Uma carreira de 30 anos… e ainda com tanto por dar.