O detalhe decidiu: França mais lúcida nos momentos-chave
A França apurou-se para as meias-finais depois de um jogo que foi tudo menos linear. Frente a uma Ucrânia competitiva, intensa e fiel à sua identidade, o encontro viveu longos períodos de equilíbrio, momentos de rutura emocional e acabou decidido no prolongamento, onde o detalhe, a lucidez e a execução sob pressão fizeram a diferença.
A primeira parte foi marcada por um jogo repartido, mas com ligeira inclinação ucraniana no capítulo das oportunidades. A França teve mais bola, procurou ataque posicional e circulação paciente, mas encontrou sempre uma Ucrânia compacta, agressiva no controlo do espaço central e perigosa sempre que recuperava. Lokoka foi determinante para manter o nulo, respondendo a vários remates exteriores e travando a iniciativa ucraniana, enquanto a França sentia dificuldades em criar superioridade clara na zona de decisão. O 0–0 ao intervalo premiava mais a organização defensiva do que a falta de ambição ofensiva.
O jogo ganhou identidade na segunda parte. A França subiu metros, começou a fixar melhor por dentro e encontrou finalmente o desbloqueio aos 27 minutos. Mamadou Touré descobriu Amine Gueddoura entre linhas e o avançado francês resolveu com classe: desmarcação curta, receção orientada de costas para a baliza e finalização no mesmo gesto, sem dar tempo de reação ao guarda-redes. Foi o primeiro momento-chave do jogo, uma vantagem construída pela qualidade da decisão e não pelo volume ofensivo.
A resposta ucraniana foi imediata e mudou o jogo. Abdessamad Mohammed cortou a bola com a mão sobre a linha de golo, num lance de limite que resultou em cartão vermelho e penálti. Yevhenii Zhuk converteu, empatando a partida e alterando completamente o plano francês. Este foi o segundo momento-chave, porque a França perdeu um jogador e o conforto emocional, enquanto a Ucrânia ganhou crença e agressividade.
Com menos um, a França foi obrigada a baixar o risco, reorganizar-se defensivamente e escolher melhor quando pressionar. O jogo entrou numa fase de decisões sob pressão, com transições mais curtas e maior carga emocional, sem que nenhuma das equipas conseguisse desfazer o empate nos 40 minutos.
No prolongamento, apareceu a maturidade francesa. Num contexto de cinco faltas ucranianas, um contacto tardio originou um livre de dez metros, e Souheil Mouhoudine assumiu a responsabilidade com frieza total, batendo alto para o centro da baliza. Foi o terceiro momento-chave, não só pelo golo, mas pelo impacto emocional que devolveu controlo à França.
Pouco depois, Mouhoudine voltou a decidir. Remate cruzado de fora da área, bloqueio inteligente de um colega e 3–1 no marcador. Quarto momento-chave, símbolo de uma França mais lúcida na leitura coletiva e mais eficaz no detalhe. A Ucrânia ainda reduziu por Korsun, novamente de penálti, relançando a incerteza nos instantes finais, mas já não alterou o rumo do jogo. O quinto e último momento-chave surgiu no golo final francês, num ataque bem temporizado que matou o jogo do ponto de vista emocional e confirmou a superioridade francesa nos momentos decisivos.
A França não venceu porque dominou sempre. Venceu porque soube interpretar melhor o jogo quando ele deixou de ser confortável, porque foi mais fria quando o erro passou a ser fatal e porque teve quem assumisse o jogo quando o detalhe decidiu.
Nas meias-finais, a França espera agora pelo vencedor do encontro entre Portugal e Bélgica, consciente de que o nível de exigência sobe e de que jogos como este deixam lições que valem tanto quanto a vitória.
Figura do jogo: Souheil Mouhoudine.
Não apenas pelo hat-trick, mas porque entendeu o jogo quando o jogo pediu entendimento. Decisivo no livre de dez metros, esclarecido na circulação e presente em todos os momentos que definiram o prolongamento. Quando foi preciso cabeça, foi ele quem a teve.
Foto: UEFA