Indonésia faz história no futsal feminino nos SEA Games 2025
A Seleção Feminina de Futsal da Indonésia escreveu uma das páginas mais marcantes da sua história ao alcançar, pela primeira vez, a final dos Jogos do Sudeste Asiático (SEA Games) 2025, realizados na Tailândia. A derrota frente ao Vietname (0-5) no jogo decisivo não apaga o feito inédito: a conquista da medalha de prata representa o melhor resultado de sempre da modalidade no país.
Na final, disputada no Bangkokthonburi University Gymnasium, em Banguecoque, a equipa indonésia tentou tudo. Apostou no ataque organizado, arriscou no cinco para quatro com guarda-redes avançada, mas esbarrou na sólida estrutura defensiva vietnamita. No apito final, restou o desalento, mas também o orgulho.
“É triste não termos vencido, mas temos de estar orgulhosas. O nosso melhor resultado tinha sido o bronze e agora chegámos à final e conquistámos a prata. Ainda por cima, inicialmente nem estava previsto enviarmos a equipa feminina”, afirmou a capitã Novita Murni Piranti.
Vitória histórica sobre a anfitriã
Dois dias antes da final, a Indonésia protagonizou outro momento memorável ao eliminar a anfitriã Tailândia nas meias-finais, vencendo por 7-6 nas grandes penalidades, após empate 4-4 no tempo regulamentar. Mais do que o resultado, impressionou a forma como a equipa superou a diferença teórica de qualidade.
No ranking mundial, a Tailândia ocupa o 8.º lugar, o Vietname o 11.º e a Indonésia surge na 18.ª posição. A supremacia tailandesa era evidente também nos SEA Games: nas cinco edições anteriores com futsal feminino, a Tailândia tinha sempre chegado à final e conquistado o ouro. Em 2025, pela primeira vez, ficou pelas meias-finais.
A Indonésia já tinha sido terceira classificada em Kuala Lumpur 2017, mas nunca tinha alcançado a final. O feito ganha ainda maior relevo tendo em conta que, na edição anterior (Vietname 2021, disputada em 2022), a equipa feminina nem sequer foi enviada, apesar de ter realizado estágio de preparação.
A importância da competição interna
O crescimento do futsal feminino indonésio não surge por acaso. Desde 2012, o país conta com a Women’s Professional Futsal League (WPFL). Apesar de uma pausa inicial, a competição tem sido realizada de forma consistente, inclusive durante a pandemia, somando já 11 edições.
Para além da liga principal, existem a Liga Nusantara (segunda divisão), liga universitária, competições interuniversitárias e torneios regionais em vários escalões. Este ecossistema competitivo permite testar jogadoras, desenvolver talento e ampliar a base da modalidade.
Um exemplo é Fitry Amelya, guarda-redes que se estreou pela seleção nos SEA Games e se destacou na WPFL, despertando o interesse do técnico Luis Estrela.
Contraste com o futebol feminino
O sucesso do futsal feminino contrasta com a realidade da seleção feminina de futebol da Indonésia. Desde 2019, o país não tem uma liga nacional feminina de futebol estruturada. Apenas este ano surgiu uma competição privada, limitada aos escalões sub-15 e sub-18.
Nos SEA Games 2025, o futebol feminino até atingiu as meias-finais pela primeira vez desde 2001, mas revelou dificuldades frente às potências regionais. Depois de perder 0-8 na fase de grupos, voltou a cair diante da Tailândia (0-2) no jogo de atribuição da medalha de bronze.
A diferença estrutural entre as duas modalidades acabou por refletir-se nos resultados.
A abordagem de Luis Estrela
O selecionador Luis Estrela, treinador português com títulos conquistados ao serviço do Benfica (campeão da Liga Portuguesa Feminina em 2021-2022 e 2022-2023), destacou a importância da base competitiva no processo de observação e crescimento.
“Nem sempre as melhores jogadoras estão apenas na liga principal. Usamos todos os canais para identificar talento. Procuramos atletas modernas, com força, técnica e forte ética coletiva”, explicou.
Mais do que a componente técnica, Estrela sublinha a transformação mental como pilar fundamental.
“Não se trata apenas das duas horas de treino. Trata-se das outras 22 horas: sono, alimentação, controlo de peso, respeito. E é preciso eliminar o medo de jogar contra as melhores seleções. Olhá-las nos olhos e jogar sempre para ganhar.”
Uma diferença de “criação”
Futebol e futsal femininos são modalidades irmãs na Indonésia. Contudo, nos SEA Games 2025, ficou evidente que tiveram percursos distintos. O futsal feminino beneficiou de estrutura, continuidade competitiva e aposta estratégica. O futebol, sem liga regular e sem base consolidada, ainda procura esse caminho.
Na Tailândia, a medalha de prata do futsal feminino não foi apenas um resultado desportivo — foi a confirmação de que investimento e organização produzem frutos.