António Aires antevê o Jogo 3: entre o orgulho ferido e a moral leonina
Se o primeiro jogo da final tinha deixado a sensação de equilíbrio, o segundo abalou completamente a narrativa da série. O Sporting respondeu à derrota na Luz com uma exibição demolidora, vencendo por 8-2 e impondo ao Benfica a mais pesada derrota da sua história em dérbis de futsal. Nunca antes um Benfica-Sporting terminara com uma diferença de seis golos. Mas agora surge a questão decisiva: foi um acidente estatístico ou um sinal claro de superioridade leonina?
A análise dos números sugere que o resultado, embora pesado, não nasceu do acaso. Um facto é que o Sporting dominou!
Ao contrário do que aconteceu no jogo 1, onde o Benfica venceu apesar de ter sido amplamente superado em volume ofensivo, o jogo 2 apresentou um domínio leonino sustentado pelos números.
Vejamos, o Sporting terminou com 56 finalizações, 8 golos, o que equivale 14% de eficácia. Por sua vez, o Benfica ficou-se por 31 finalizações, 2 golos, correspondente a 6% de eficácia.
A diferença não esteve apenas na quantidade de remates, mas sobretudo na forma como os leões chegaram às zonas de finalização. O Sporting produziu perigo em todos os momentos do jogo: 20 remates em ataque posicional; 11 remates em transição; 20 remates provenientes de bolas paradas e 7 remates em situações de superioridade.
No fundo, o leão conseguiu apresentar números tão elevados em praticamente todos os momentos do jogo. E talvez os números não foram mais elevados atendendo ao desempenho de Léo Gugiel, que em 43 remates realizou 21 defesas. Os números mostram que o guarda-redes brasileiro evitou um resultado ainda mais pesado. Do outro lado, Bernardo Paçó realizou uma exibição tranquila, sofrendo apenas dois golos em 21 remates enquadrados e transmitindo segurança durante praticamente toda a partida. Uma das notas mais relevantes da goleada foi a diversidade de soluções ofensivas apresentadas pelo Sporting. Marcaram Pauleta (2), Bruno Pinto (2), Tomás Paçó, Zicky Té, Diogo Santos e Alex Merlim. Pauleta foi particularmente influente, terminando com nove remates e dois golos. Alex Merlim voltou a assumir papel determinante na criação ofensiva, enquanto Bruno Pinto revelou uma eficácia assinalável ao marcar dois golos em apenas seis remates. O resultado pode levar a pensar que o problema esteve apenas nos oito golos sofridos, mas os dados mostram outros aspectos, por exemplo, o Benfica produziu apenas 31 finalizações, praticamente metade das do adversário. Jogadores habitualmente decisivos tiveram impacto reduzido. Veja-se: Pany terminou apenas com um remate; O pivô Higor não registou qualquer finalização. Por sua vez, Lúcio Rocha rematou apenas duas vezes e só Arthur foi o único a tentar remar contra este cenário terminando com cinco remates e um golo.
Senti como espectador e sensibilidade de treinador de bancada que a equipa encarnada perdeu várias das ligações na sua dinâmica de jogo, sobretudo ligações/conexões interiores que tinham funcionado no jogo 1 e nunca conseguiu controlar, também, o ritmo emocional da partida, como referiu o Cassinano na análise pós jogo.
E agora o que vai suceder no take seguinte, o que esperar do jogo 3?
É precisamente aqui que a final pode ganhar uma dimensão fascinante. O 8-2 vale apenas um ponto, aspecto referido por Nuno Dias. Uma verdade inquestionável. No fundo a eliminatória está empatada 1-1.
O Sporting chega moralizado, embalado por uma exibição histórica e com a sensação de ter encontrado soluções para desmontar o modelo encarnado. O Benfica chega pressionado, mas também consciente de que dificilmente é impossível repetir uma exibição tão pobre. Equipas campeãs costumam responder quando são colocadas perante as adversidades, e o atual campeão nacional terá agora de mostrar precisamente isso.
Além disso, existe um dado que aconselha prudência a quem pensa que o momento da final mudou definitivamente de mãos: nas séries longas, as equipas raramente conseguem reproduzir desempenhos extremos de forma consecutiva. Por isso, mais do que repetir o 8-2, o verdadeiro desafio do Sporting será manter a intensidade, a agressividade defensiva e a capacidade de criar volume ofensivo. Já para o Benfica, o desafio é mais profundo: recuperar a confiança, reencontrar os seus desequilibradores, as suas conexões e provar que a goleada do João Rocha foi apenas um acidente de percurso.
Concluindo: O jogo 3 pode não decidir o campeão, mas pode decidir quem assume a liderança nesta final à maior de 5 jogos. De um lado, um Sporting galvanizado por uma noite histórica e embalado pelo rugido de quem acredita ter encontrado o caminho para o título. Do outro, um Benfica ferido no orgulho, mas com a experiência e a qualidade de quem sabe que as grandes equipas costumam responder quando todos começam a duvidar delas. Quando a bola começar a rolar, o marcador voltará a estar a zeros. O Benfica já mostrou que sabe ser letal. O Sporting já mostrou que é capaz de esmagar o adversário. Cada recuperação, cada remate, cada defesa e cada decisão podem alterar o rumo de uma época inteira.
No fundo, numa final entre leões e águias, a história nunca pertence a quem olha para trás, mas sim a quem tem coragem para a escrever.
Viva, o Futsal.
Antevisão do jogo 3 da Liga Placard de Futsal, por António Aires