André Sousa em entrevista a A BOLA: "Orgulho-me da minha carreira"
Numa extensa e profunda entrevista concedida ao jornal A BOLA nas instalações das Torres de Lisboa, publicada esta terça-feira, 23 de junho, o antigo internacional português de futsal André Sousa abriu o coração ao jornalista Eduardo Pedrosa Marques sobre o final da sua carreira. O guarda-redes de 40 anos traçou o balanço de mais de duas décadas no futsal, recordando o caminho que o levou do futebol às quadras, de Coimbra ao topo do mundo, dos primeiros passos na Académica até ao adeus no CR Leões de Porto Salvo. Mostrou-se em paz com a decisão e plenamente orgulhoso do trajeto realizado.
Tudo começou no futebol, mas foi no futsal que deu cartas
Tudo começou no futebol, ainda em menino, em Coimbra. "O meu pai jogava futebol de salão e eu ia ver muitos jogos dele. O bichinho também vem muito daí", contou. Aos 13 anos, e por convite de um amigo, André Sousa decidiu experimentar o futsal, também na Académica. O percurso na formação passou ainda pelo Santa Clara (Coimbra) antes do regresso à Briosa para concluir a etapa de formação e o primeiro ano de sénior. "Algo muito bom porque também me permitiu continuar a estudar", sublinhou.
Seguiram-se passagens pelo Instituto D. João V, Operário e Fundão, antes de chegar aos dois grandes do futsal nacional. "Acabo por chegar a esse patamar aos 26, 27 anos. Geralmente, o objetivo é chegar aos denominados grandes mais cedo, mas se há coisa de que me orgulho é de ter feito o meu percurso passo a passo", afirmou. Conseguiu o melhor dos dois mundos: foi-se formando em Desporto, em Coimbra, ao mesmo tempo que construía a carreira desportiva.
Cinco épocas no Sporting CP e cinco épocas no SL Benfica: "10 anos dourados"
A passagem pelo Sporting CP durou cinco épocas, e o mesmo aconteceu depois no SL Benfica, igualmente cinco temporadas. "Podemos falar em 10 anos dourados? Sim, sem a mínima dúvida. Houve todo um processo até lá chegar, com muita resiliência, com decisões melhores do que outras, o que faz parte, mas este é o patamar onde qualquer jogador deseja chegar", sublinhou. "Consegui muitos títulos e não escondo o orgulho por esses registos muito interessantes que alcancei", frisou.
Por clubes, André Sousa conquistou uma Liga dos Campeões, três Campeonatos Nacionais, três Supertaças, quatro Taças da Liga e cinco Taças de Portugal. Questionado sobre o título mais especial, devolveu a resposta com elegância: "Acho que cada um tem a sua história, a sua mensagem e também a sua dificuldade. Tem tudo a ver com os clubes, os contextos, os grupos. Se me pede para destacar algum, talvez a Liga dos Campeões, no primeiro pelo Sporting. Mas claro que todos os títulos em todos os clubes foram extremamente importantes e ficarão guardados para a eternidade", afirmou.
Dois anos no Leões de Porto Salvo e o final inesperado
Depois das passagens pelos dois grandes, André Sousa rumou ao CR Leões de Porto Salvo, onde passou os últimos dois anos da carreira. "Sinceramente, não sei [risos]. Ainda há pouco tempo estava a falar nisso com a minha mulher. Acima de tudo, sinto-me bem e super tranquilo com a decisão que tomei. Não foi algo pensado na semana passada", contou, revelando ainda que desde que entrou no projeto do Leões de Porto Salvo, "e felizmente que agarrei essa oportunidade, tinha a ideia de serem mais dois anos, porque vinha de um período muito difícil, devido à lesão. E como comecei a pensar na questão de preparar-me para terminar a carreira, o processo tornou-se mais natural. Também já sabia o que queria fazer no pós-carreira, qual era o caminho que queria seguir, ou seja, tudo junto facilitou todo este caminho".
O cansaço mental que ditou o fim
Sobre o desgaste sentido na reta final, o antigo internacional não escondeu a verdade. "No treino senti isso, sim. Não digo no plano físico, nem tático, mas mentalmente. Já me sentia mais desgastado e o treino já me custava muito mais. Já não era tão prazeroso. O sábado para mim era sempre o melhor dia, porque era jogo. A ansiedade e o nervosismo continuaram sempre lá. Nunca perdi a competitividade de querer ganhar", partilhou com sinceridade absoluta.
Um adeus inesperado em Lisboa
O ponto final acabou por chegar de forma inesperada: o Leões eliminado pelo SL Benfica nas meias-finais do playoff, e o internacional português expulso no primeiro jogo dessa eliminatória, não podendo contribuir no encontro seguinte. "Foi doloroso. Obviamente que idealizei o momento de outra forma e não o de estar na bancada. Mas, felizmente, estava com a minha família, os meus amigos, e não deixou de ser um dia memorável. Obviamente que ao dia de hoje ainda não consigo brincar com a situação, talvez mais lá para a frente [risos]", partilhou.
Homenagem no Pavilhão da Luz e o adeus emotivo
A homenagem mais emotiva chegou na sua antiga casa, o Pavilhão da Luz, onde foi aplaudido de pé pelos adeptos encarnados. "Apesar de tudo, não deixou de ser um dia extremamente emotivo e memorável. Acabei por receber também do Benfica aquela bonita homenagem. É sempre prazeroso sentir o carinho dos adeptos dos clubes por onde passei. Mais do que os títulos e troféus, é realmente importante para mim chegar ao final da carreira e perceber que deixei uma mensagem, que deixei carinho. Houve pessoas com quem me cruzei ao longo deste caminho que vão marcar o resto da minha vida. Felizmente fiz boas amizades e as várias homenagens que me fizeram enchem-me de orgulho, naturalmente", confessou.
118 internacionalizações e o pacote ouro com a Seleção Nacional
Ao serviço da Seleção Nacional, André Sousa somou 118 internacionalizações e conquistou um palmarés de eleição: dois Europeus (2018 e 2022), um Campeonato do Mundo (2021) e uma Finalíssima Intercontinental (2022). Numa cerimónia simbólica, a Federação Portuguesa de Futebol ofereceu ao guarda-redes uma camisola com o número 118, em representação do total de internacionalizações conquistadas.
"O Europeu de 2018, em que ganhámos 3-2 à Espanha na final, é um dia que nunca mais se esquece. Entrei na Seleção Nacional em 2009 e acompanhei várias gerações, sempre com grandes jogadores. Malta que andava há anos atrás de um título que teimava em não chegar. Já nessa altura tínhamos muita qualidade, mas as conquistas acabaram por surgir depois", recordou. Sobre os títulos pela Seleção: *"São grandes títulos. Tive a possibilidade de fazer parte deles e serão sempre motivo de orgulho para qualquer atleta"*.
"Tive a felicidade de ter sido orientado pelos melhores treinadores do Mundo"
Sobre os técnicos com quem trabalhou, Nuno Dias e Jorge Braz, André Sousa não regateou elogios. "Sem dúvida. Tive a felicidade de ter sido orientado por alguns dos melhores treinadores do mundo. Relativamente ao Nuno Dias, é ele que me convida para ir para o Instituto D. João V, quando estava na Académica. E permitiu-me jogar e estudar em simultâneo, porque a distância era de cerca de 50 quilómetros e dava para conjugar. O melhor dos dois mundos, portanto. Já na altura se percebia que ia chegar muito longe. É extremamente exigente. E isso tem permitido ao Sporting estar no topo há muitos anos. Continua a ganhar, mas os jogadores têm de dar sempre mais para poderem ganhar ainda mais. É uma mensagem muito genuína dele e que tem tudo a ver com a sua forma de estar", partilhou.
Sobre Jorge Braz, deixou também palavras sentidas. "Relativamente ao mister Braz, e ainda que com características diferentes do Nuno Dias, sem entrar em qualquer tipo de comparação, claro, é outro tipo de personalidade. Tem aquele conceito de família e agrega muita gente a essa forma de estar. Foi alguém com quem estive 13 ou 14 anos na Seleção e que muito me ajudou. Mesmo nos meus momentos mais difíceis", afirmou.
Ricardinho: "Era de outro planeta"
Questionado sobre os companheiros de equipa marcantes, André Sousa não hesitou em destacar Ricardinho. "Incrível. Mais do que a capacidade técnica, que a todos deliciava, nunca senti um jogador com tanta alegria a treinar como o Ricardo. Sempre com um sorriso na cara, aquele sentimento de jogo de rua, a tranquilidade, a forma mágica como tratava a bola... Acho que para quem acompanhou a carreira dele, como eu acompanhei, foi também bastante interessante perceber a evolução e inteligência tática que conseguiu alcançar. Teve anos dourados. Treinar contra ele? Havia muita malta que se passava [risos]. E foi sempre alguém que nunca se colocou em bicos dos pés, sabia ser capitão, sempre disposto a ajudar tudo e todos. Foi o nosso grande jogador naquelas conquistas que tivemos na Seleção", descreveu.
Futuro tratado: mercado imobiliário com Donato Sperti
O futuro de André Sousa está tratado e bem definido. Licenciado em Ciências do Desporto e Educação Física pela Universidade de Coimbra, e com dois Mestrados (Educação Física, em Coimbra, e Treino Desportivo, na Universidade da Beira Interior), o antigo internacional optou por enveredar pelo mercado imobiliário. Já está no ramo há cerca de cinco anos, em parceria com o ex-jogador Donato Sperti. "É uma paixão antiga e estou absolutamente focado nesta nova fase da minha vida. Trata-se de compra, remodelação e revenda de imóveis, com o epicentro na área da Grande Lisboa e Margem Sul", anunciou.
Um dos grandes: obrigado por tudo, André
A peça do jornal A BOLA fecha-se com um editorial paralelo de tributo da própria redação. "Nunca se irá saber o que teria dado o André Sousa jogador de futebol, mas hoje todos sabemos o que deu o André Sousa jogador de futsal. E, perante as evidências, Portugal só tem de estar grato a André Sousa pela forma como elevou o futsal nacional", lê-se na peça.
A redação sublinha ainda o reconhecimento absoluto: "E se haverá quem se recorde daquelas defesas magistrais que fizeram do guarda-redes um dos melhores de sempre, não haverá quem esqueça os títulos que jamais serão apagados da história. Porque André Sousa pode orgulhar-se de ter conquistado cinco Taças de Portugal, quatro Taças da Liga, três Campeonatos, três Supertaças e uma Liga dos Campeões. Não é para todos. Algo só ao alcance dos predestinados. Como foi André Sousa". E o final é tocante: "Não só o (extraordinário) jogador, mas também o (exemplar) homem. Obrigado por tudo, André!"