A olho clínico de António Aires sobre a 4ª jornada da Liga Placard 2026/27
4ª jornada — Liga Placard 2026/27
A Liga Placard começa a mostrar-nos que ninguém pode viver de estatutos. Podemos ter uma época extremamente competitiva. Temos os crónicos candidatos ao título, Leão e Águia. Para acesso aos play-offs, um batalhão de candidatos, e a fuga à despromoção será também interessante de acompanhar. A terceira jornada brindou-nos com 41 golos, reviravoltas e jogos carregados de emoção. O Fundão manteve-se em bom pleno. Leões de Porto Salvo, comandados por Ré, confirmaram que têm poder de fogo, e Famalicão e Ferreira do Zêzere conheceram finalmente o sabor da vitória. Por sua vez, o derby entre Sporting e Benfica terminou com uma igualdade a três bolas. Na verdade, os vila-condenses e os guerreiros do Minho proporcionaram um jogo de loucos. Por sua vez, o Eléctrico perdeu a invencibilidade e o Portimonense, creio que sentiu que este caminho da Liga Placard é de exigência em todos os fins-de-semana. No fundo da tabela, Torreense e UP Venda Nova continuam à procura dos primeiros pontos.
Vamos aos jogos.
SL BENFICA vs LEÕES PORTO SALVO
Um dos grandes jogos desta quarta jornada.
O Benfica regressa à Luz depois de dois empates consecutivos. Primeiro deixou escapar uma vantagem de dois golos em Portimão; depois saiu do João Rocha com uma igualdade a três bolas. Cassiano Klein valorizou precisamente a resposta competitiva da equipa depois da exibição menos conseguida no Algarve. Mas há um dado que não pode ser ignorado, o campeão nacional tem cinco pontos em nove possíveis nas primeiras três jornadas. É verdade que continua invicto.
Os Leões de Porto Salvo chegam à Luz depois de um expressivo 7-3 sobre o Portimonense e ocupam o terceiro lugar, com sete pontos e 13 golos marcados, o segundo melhor registo ofensivo, superado unicamente pelo leão de Alvalade. Miguel Velez parece começar a afinar a "máquina", e as conexões que procurava num plantel profundamente remodelado começam a impactar o modelo de jogo. O regresso de Ré acrescenta experiência, liderança e qualidade. Francisco Oliveira tem aparecido nos momentos de finalização e Guilherme Cintra demonstrou diante do Portimonense que também pode ganhar jogos entre os postes. No entanto, o golo de Ruben Carrilho, diante do Portimonense, é digno de registo, pois é de alto recorte técnico. Será interessante perceber até que ponto os Leões conseguem transportar para a Luz essa irreverência ofensiva. O Benfica vai procurar assumir o domínio do jogo. Porto Salvo terá de saber sofrer sem perder capacidade para sair da pressão.
Chave do jogo: a capacidade do Benfica para controlar as transições dos Leões sem perder agressividade ofensiva, bem como a capacidade dos Leões de Porto Salvo encontrarem espaços para ferir os encarnados.
PORTIMONENSE SC vs AD FUNDÃO
Uma partida muito interessante para percebermos qual será a melhor face que as duas equipas nos têm para oferecer.
O Portimonense deixou excelentes indicações diante de Sporting e Benfica. Depois, na deslocação a Porto Salvo, averbou uma derrota pesada olhando aos números. Honestamente, achei interessante o 5x4 dos algarvios. Muitas opções na busca da vantagem numérica, para concretizar com êxito. Isto não apaga os problemas apresentados pelos algarvios, mas também não destrói aquilo que tinham demonstrado nas primeiras jornadas. Agora regressam a casa e recebem um Fundão que talvez esteja a realizar um dos melhores começos de época. Nas três jornadas correspondentes ao calendário regular, os serranos somam três vitórias, 11 golos marcados e apenas quatro sofridos. Braga, Ferreira do Zêzere e UP Venda Nova foram as suas vítimas.
O Fundão já mostrou várias caras. Sabe ganhar no último segundo, como diante do Braga; sabe sofrer e corrigir durante o intervalo, como em Ferreira do Zêzere, e sabe resolver encontros nos minutos finais, como aconteceu com a UPVN. Peléh aparece entre os melhores marcadores da prova, enquanto jogadores como Nem, Uesler e Tiago Tavares acrescentam soluções diferentes. Gostei de Tatá. Está mais pivô. Mais completo, mais lutador e pragmático na hora de visar a baliza. Curiosamente, o único grande abanão foi o 0-7 diante do Sporting, num jogo antecipado da sétima jornada.
Chave do jogo: perceber se o Portimonense consegue impor em casa um jogo diferente no que respeita ao resultado final, mas com a mesma densidade competitiva daquele que apresentou perante Sporting e Benfica. Desta vez, terá maior responsabilidade para assumir iniciativas ofensivas, só que isso poderá abrir os espaços que a equipa de Nuno Couto adora explorar.
ELÉCTRICO FC vs SPORTING CP
O Eléctrico começou a época com duas vitórias e chegou a Famalicão cheio de confiança, porém acabou derrotado por 3-1, apesar de ter marcado primeiro através do guarda-redes Diogo Basílio. A equipa de Jorge Monteiro não realizou necessariamente um mau jogo, faltou-lhe sobretudo transformar o bom período inicial em vantagem mais dilatada.
Agora recebe um Sporting que vem de um derby onde criou muitas oportunidades mas marcou somente três golos. Poderia ter marcado mais, mas também permitiu ao Benfica o 3-3. Nuno Dias dispõe de uma equipa capaz de variar entre o 3:1 e momentos de 4:0, movimentar constantemente as peças e criar vantagens através de bloqueios e rotações. Mas também mostrou que nenhum sistema elimina a velha máxima, é preciso colocar a bola dentro da baliza. Há ainda contexto importante no plantel leonino, Zicky Té, Erick Mendonça e Chiscala encontram-se ausentes. Que rendimento a equipa terá com este triunvirato? Ponte de Sor não costuma oferecer tardes tranquilas, nem mesmo para o Leão. Wesley está on fire, que golaço no último jogo. Partilha com o seu colega Valério e Peléh, do Fundão, a lista dos melhores marcadores do campeonato. O Eléctrico tem identidade e experiência suficiente para contrariar o apetite leonino.
Chave do jogo: a capacidade do Eléctrico para sobreviver aos períodos de maior pressão leonina sem perder organização, sobretudo nos esquemas tácticos ofensivos do leão. Por sua vez, a equipa de Nuno Dias terá de evitar que a eventual falta de eficácia se transforme novamente em ansiedade.
UP VENDA NOVA vs SCU TORREENSE
Desportivamente é um dos jogos mais importantes da jornada. Último contra penúltimo. Zero pontos contra zero pontos. A UP Venda Nova perdeu os três primeiros encontros, mas a leitura não pode ficar pelos resultados. Na Luz resistiu durante largos períodos. Contra Porto Salvo chegou ao intervalo empatada. No Fundão manteve o jogo vivo até muito perto da conclusão do encontro. O problema repete-se, a equipa de Alcides Lopes consegue competir durante partes significativas do encontro, mas ainda não consegue sustentar esse nível durante os 40 minutos, pelo menos é a minha sensação. E pergunto, é uma questão física ou mental?
O Torreense vive um problema algo distinto. Diante do Ferreira do Zêzere teve períodos de domínio e até criou oportunidades, mas perdeu por 1-3. A saída de Naná e, a fazer fé nas suas palavras, demonstra falta de comunhão em ideias estruturais, sobretudo naquilo que denominamos equipa técnica, que permitam conferir estabilidade para o sucesso acontecer. É preciso urgentemente transformar potencial da equipa em rendimento. Neste jogo, é possível alguém sair com a primeira vitória da época.
Chave do jogo: o primeiro golo pode ser fundamental. Duas equipas pressionadas pela classificação podem mudar radicalmente o comportamento quando uma delas se colocar em vantagem. Mais do que talento, poderá vencer quem melhor controlar a ansiedade.
FERREIRA DO ZÊZERE vs RIO AVE FC
Confronto que promete ser uma partida excelente de futsal. O Ferreira conseguiu finalmente a primeira vitória, mas o resultado não conta toda a história. O Torreense criou muito durante a primeira parte e Pedro Martinho foi decisivo. O Ferreira soube sofrer, marcou num momento importante e depois utilizou a necessidade do adversário para ampliar a vantagem. Octávio Alves, Djaelson e Rui Fortes assinaram os golos. É precisamente essa capacidade pragmática que poderá ser decisiva contra o Rio Ave.
Os vila-condenses chegam de um inacreditável 6-6 contra os arsenalistas. Estiveram a vencer por 4-1, 5-2 e 6-3 e deixaram escapar a vitória nos minutos finais. Há talento ofensivo evidente, 11 golos marcados em três jornadas. Mas há igualmente um enorme problema defensivo, 14 sofridos, o pior registo da Liga após as três primeiras rondas. Mais preocupante do que sofrer golos é a forma como o Rio Ave tem perdido controlo sobre os encontros. A expulsão de Miguel Ângelo e a lesão de Rúben Freire podem ajudar a contextualizar o desfecho frente ao Braga, mas não eliminam a necessidade de aprender a gerir vantagens. Em Ferreira encontrará intensidade, organização e um ambiente único.
Chave do jogo: o confronto entre a capacidade ofensiva do Rio Ave e a organização colectiva do Ferreira. Se os vila-condenses transformarem o encontro numa sucessão de transições, teremos provavelmente golos. Se Cristiano Coelho conseguir controlar o ritmo, o Ferreira pode levar o jogo para um terreno mais favorável.
SC BRAGA vs FC FAMALICÃO
Derby do Minho. Duas equipas que chegam empatadas com quatro pontos, embora por caminhos bastante diferentes. O Braga protagonizou um dos jogos mais loucos da última ronda. A equipa de Joel Rocha esteve a perder por 6-3 em Vila do Conde e conseguiu chegar ao 6-6 com três golos praticamente consecutivos na fase final. Há mérito evidente na reacção. Uma equipa que se recusa a morrer tem sempre algo importante dentro dela. Mas Joel Rocha seguramente olhará também para o outro lado da moeda, dez golos sofridos em três jornadas são demasiados para uma equipa que assumiu a intenção de se aproximar definitivamente do topo. O Braga até marca bastante, 12 golos, mas continua demasiado permeável.
Por sua vez, o Famalicão chega moralizado pela primeira vitória. Depois de sofrer oito golos diante do Sporting, respondeu com um 3-1 diante do Eléctrico, recuperando de uma desvantagem inicial. Ruizinho bisou e Daniel Silva voltou a marcar. Mais importante é que a equipa de Cláudio Martins mostrou capacidade para corrigir precisamente aquilo que mais problemas lhe vinha trazendo, a estabilidade defensiva. Agora terá um teste substancialmente diferente. Em Braga haverá mais pressão, mais posse adversária e uma equipa que quererá fechar a jornada com três pontos diante dos seus adeptos.
Chave do jogo: a organização defensiva do Braga quando perde a bola. O Famalicão mostrou que consegue castigar erros. Se os arsenalistas mantiverem estes períodos de desconcentração, vistos nas jornadas anteriores, os visitantes têm argumentos para incomodar.
Concluindo: chegamos à quarta jornada e começam a desaparecer algumas desculpas próprias do início da época. Já houve tempo para experimentar, corrigir e perceber onde estão os primeiros problemas. Agora começam a ganhar peso a consistência, a capacidade de adaptação e a resposta às dificuldades.
Nota final: deixa-me recordar o dia 3 de outubro, em que celebramos o 5º aniversário da conquista do Mundial 2021. Que dia! Final Portugal-Argentina.
Que role a bola, que os pavilhões voltem a ganhar voz e que os artistas façam o resto.
Viva!