Ricardinho: 'O truque que me falta é conseguir ganhar um título com a seleção'
Pela quarta vez o melhor do mundo, terceira consecutiva. Como é ter o mundo do futsal aos seus pés?
Bom, ter "o mundo a meus pés" não é bem assim... Primeiro houve muito trabalho, muito sacrifício, como ter de vir para Espanha para mostrar o meu valor. Felizmente nos últimos três anos conquistar três Bolas de Ouro não é fácil para nenhum atleta. Estou extremamente feliz por ter o reconhecimento mundial dos treinadores e jogadores.
Que impacto tem no seu dia-a-dia o estatuto de melhor do mundo? Há mais reconhecimento e também mais cobrança, seguramente. A relação entre ambas é equilibrada?
Sim, sem dúvida que há um maior reconhecimento, porque o futsal está a aparecer cada vez mais, a ser mais reconhecido e a passar mais na televisão. Em Espanha passa em dois canais de televisão - a Eurosport e a Teledeporte. Só aí já é um reconhecimento enorme. Fora os streamings. E, obviamente reconhecendo o meu trabalho, as pessoas reconhecem-me muito mais, seja na televisão seja na rua. Claro que para mim é um sentimento fantástico, mas isso não é tudo!
O Ricardinho é uma figura com enorme popularidade, os vídeos com os seus truques são frequentemente virais nas redes sociais, saltando as fronteiras do próprio futsal. Nesta altura, pode-se dizer que é o Ricardinho quem dá mais ao futsal ou ainda é o futsal que dá mais ao Ricardinho?
Acho que o Ricardinho dá muito ao futsal e o futsal deu muito ao Ricardinho e continua a dar. Tudo aquilo que eu sou hoje devo muito ao futsal. Fez de mim a figura que sou. Sem dúvida alguma que esta é uma parceria de sucesso! Eu dou muito ao futsal e o futsal dá-me muito a mim, por isso ambos estamos satisfeitos, com certeza.
Conseguiu, por fim, sagrar-se campeão europeu com o Inter Movistar, um objetivo que perseguia há algum tempo. Foi um alívio?
Não foi um alívio ser campeão da Europa pelo Inter. É óbvio que era uma pressão enorme, depois de tanto tempo sem o Inter estar no topo da Europa. O clube tinha esse objetivo bem claro. No ano passado perdemos em nossa casa. Este ano conseguimos, longe de casa, mas conseguimos conquistá-lo. Voltar a tocar o céu é, sem dúvida, uma conquista muito importante. Para mim, sempre fomos a melhor equipa do mundo, apesar de nos últimos anos não termos tido esse sucesso. Felizmente conseguimos agora!
Ser contra uma equipa portuguesa, no caso o Sporting, teve algum significado especial?
Significado especial não teve, mas é sempre bom ver equipas portugueses a chegarem à final das competições desportivas. O Sporting está de parabéns por todo o trabalho que fez e pela aposta que está a fazer na modalidade. Apesar de os jogadores mais preponderantes do clube não serem portugueses, e isso, para mim, deixa um bocadinho a desejar, é um nome português, é uma estrutura e um clube fantástico. Todos sabemos que é um clube de topo, que lutou connosco para conseguir ganhar esta final, mas felizmente o Inter foi muito mais forte. Mas, para mim, o mais importante foi conseguir conquistar este título para o clube.
Dá para comparar sentimentos, entre esta conquista e a que conseguiu pelo Benfica? Ou, colocando a questão noutros termos, numa finalíssima entre este Inter Movistar e aquele Benfica, qual levava a taça?
Comparar o primeiro troféu que ganhei pelo Benfica em 2010, campeão da Europa, porque foi em Portugal, pelo clube do meu coração, com um pavilhão com dez mil pessoas, contra a melhor equipa do mundo... foi o culminar de muita coisa quando muitos não acreditavam em nós. Neste caso foi diferente, porque acreditavam em nós, sabiam que tínhamos uma equipa forte, foi longe de casa, apesar de eu me sentir em casa muitas vezes, porque o Cazaquistão recebeu-me de braços abertos. Foi contra uma equipa portuguesa que me fez sentir "em casa", porque se falava português, mas não se pode comparar. O de 2010 foi fantástico.
Que objetivos tem ainda a cumprir em Espanha ao serviço da sua equipa?
Os meus objetivos são sempre os mesmos: é ganhar a próxima competição, o próximo jogo, o próximo título. É isso que eu quero. E no clube conseguimos, até hoje, fazer história: ganhámos três Ligas, duas Taças, uma Supertaça, uma Taça do Rei, mas nunca ganhámos quatro anos seguidos a Liga, por isso, este ano temos essa oportunidade e vamos lutar por tudo, e, se conseguirmos, vai ser, sem dúvida, fantástico!
Pode dizer-se que está como Cristiano Ronaldo estava há um ano? Só lhe falta mesmo conseguir um título importante com a seleção... será em 2018, no Europeu?
Sim, sem dúvida que nesse aspeto identifico-me muito com o Cristiano. A ele faltava-lhe esse título pela seleção. Conseguiu conquistar o Europeu, juntamente com os seus companheiros, porque isto não se ganha nada sozinho. Foi um título fantástico. Espero sinceramente que, em breve, junto com os meus companheiros possa dar essa felicidade a Portugal. Não vai ser fácil, mas tudo o que é difícil sabe melhor.
Os truques com a bola são a imagem de marca. Dar espetáculo é uma necessidade básica para si enquanto jogador?
Dar espetáculo nunca foi uma necessidade. Foi sempre um prazer, porque as pessoas pagam bilhetes para nos ver jogar. A modalidade não era tão forte até há uns anos. Cada vez está a ser mais forte. Não era tão reconhecida. As pessoas vinham, marcavam presença e enchiam os pavilhões, e nós tínhamos de dar algo diferente. Se for para dar o que todos dão, as pessoas aborrecem-se. Então acho que faz parte do meu jogo, faz parte da minha vida dar espetáculo, dar show, ver as pessoas serem felizes ali e voltarem. Acho que isso é o mais importante.
Mágico. Identifica-se com a alcunha que lhe colaram? Se fosse o Ricardinho a escolher a própria alcunha, escolhia esta ou preferia outra? E porquê?
Sim, eu escolheria Mágico - é a alcunha perfeita. Foi-me colocada nos anos em que estava no Benfica e sinto-me satisfeito por poder dar-lhes realmente essa magia.
Qual é o truque que ainda lhe falta fazer?
O truque que ainda me falta fazer é conseguir conquistar um título pela nossa seleção. É o maior truque que me falta fazer.
Está com 31 anos e só termina contrato com o Inter Movistar em 2019. Pensa regressar a Portugal ainda para jogar, ou é algo que pode não vir a acontecer?
Tenho mais dois anos de contrato com o Inter e uma cláusula de rescisão de 1,5 milhões de euros. Por isso, para as coisas acontecerem já sabem o que têm de fazer!
Olhando para trás, e com tudo o que conseguiu conquistar no futsal, ainda fica desiludido por não ter singrado no futebol de onze ou até agradece?
Não fico desiludido por não ter conseguido consagrar-me no futebol. Tive a minha oportunidade. As coisas não tinham de correr assim. Se calhar, já estava destinado que eu tivesse de fazer história no futsal. Ajudar a modalidade a crescer. A modalidade ajudou-me a crescer também e acho que fazemos uma parceria perfeita.
Entrevista de Rui Frias e Bruno Pires in dn.pt/desporto
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